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21/04/2015

Música na ponta dos dedos (Crónica #8)

Paris

Estação de Châtelet, 8h50. As portas abrem-se para deixar entrar o Mundo. O enxofre é forte àquela hora da manhã, misturado com eau de cologne  e café. A gabardine Burberry que com indiferença, se faz vizinha do manto encardido e nauseabundo… 

Como eu adoro Paris!

Lá vai ele a todo o gás rumo a St-Germain des-Prés, onde quero sair. Enésima viagem de Metro, e nada para fazer? Hoje nem há músicos ambulantes a deambular pelos vagões, só os apertões do costume. Observo com atenção. Procuro os olhares vazios que se cruzam com os meus, procurando o infinito. Desisto do olhar. Contemplo os dedos. Irrequietos, enrugados ou pueris, unhas a anunciar vidas difíceis, outras bem revestidas a cores do arco-íris. Na sua encantadora diversidade cultural, que muitos fazem questão de enaltecer como factor diferenciador, vejo o coeso, a harmonia de um qualquer instrumento musical. Todos eles dão música. Dedilham. Dedilham desenfreadamente, partilhando as suas vidas como se estivessem do lado de lá, e eles e elas, do lado de cá. Sorrisos mordidos, amarelos, rasgados ou torcidos, reprovadores, maliciosos, sinceros, tímidos, de espanto, sonoros, apaixonados, irónicos, hipócritas, sinistros, sedutores... Os dedos dão música.

Os meus dedos também dão música. Faço-o desenfreadamente, tal qual estes rostos sem nome, que me fazem companhia solitária nesta curta viagem, por entre túneis labirínticos, escurecidos pela fuligem. Milhões de terabytes são transportados por segundo, levando com eles desabafos, emoções, desassossegos e contentos, desgostos, conquistas, alegrias e lágrimas…
Na azáfama do dia-a-dia, nem nos damos conta do que fazemos aos nossos dedos…
Qualquer dia fazem greve, dizem – Não quero mais!


Mas a mente tem fome, tem sede de falar. A boca já não chega, é preciso dedilhar!


Beijinhos da Ravioli com queijo! Y
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